Há muitos lugares para ir (literalmente ou não)
"Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve".
Essa citação de Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas data de 1865 (!!!), e infelizmente é muito usada pelos hoje famosos supostos gurus de pensamento moderno, vendedores de curso de vender curso, e daí para baixo. E sim, também infelizmente, eles estão presentes em todos os lugares. Eles até tentam expor diferentes objetivos, mas no final, geralmente convergem em apontar para uma “glória fascinante” ou “felicidade embriagante”. E veja bem, não há nada de errado em de fato buscar por nada disso, OK? Mas o que você define como destino não só pode não fazer sentido nenhum, mas tornar o seu caminho miserável, e no pior dos casos, até começar a fazer você odiar a sua paixão.
Antes de mais nada, eu não vou correr o risco de ser mais um dos "gênios" que mencionei acima: eu não tenho nenhuma ciência ou fórmula para trazer para ninguém. A maioria do que está aqui (e o que quer que eu venha a trazer em qualquer momento) tem a ver com o que ME passou, na experiência de mais um da maioria de vocês, amadores que praticam este esporte com o fundo do coração a ponto disso se fundir à sua personalidade. E quando não ME passou, é fruto de vivências com inúmeras pessoas (de iniciantes a profissionais) que já passaram pelo meu caminho e sofreram destes questionamentos e inquietações. Não significa que há algo de errado (ou certo) se essas coisas nunca tenham passado pela sua cabeça. Mas pode acontecer em algum momento, e se não acontecer, melhor ainda!
O perigo do resultado
Obviamente, todo esporte tem a ver com ganhar ou perder, e mais obviamente ainda, todo mundo joga para vencer. O efeito disso observado de maneira saudável e controlada é essencial, no esporte, na vida e na sociedade. Até aí, tudo certo.
O problema é que existe um risco enorme em aliar a sua identidade no esporte com resultados. É legal (e mais uma vez, até saudável mesmo) ter para si a meta de vencer A ou B, conquistar C ou D, e isso pode, de fato, te mover a evoluir. Mas quem será você quando perder? Perceba: não estou falando aqui de espírito esportivo, porque isso tem a ver com quem você é para com o mundo. Mas e para você mesmo? Independente de frustração (tema para outra oportunidade, e provavelmente com conteúdo que fugiria do que você acredita que seria o padrão), como isso afetaria a sua imagem no esporte e vice-versa? Você pode estar no melhor da sua forma e no melhor dos seus dias e ainda assim não vencer. Tem alguém do outro lado da mesa que é um outro universo, e condicionar sua identidade a algo tão externamente influenciado é uma roleta russa, e uma onde você nem sabe quantas balas a arma carrega.
Tive e tenho muitos privilégios na minha trajetória com este esporte, mas talvez o maior deles foi ter me dado conta bem cedo (e por mim mesmo, certamente mais sorte do que qualquer outra coisa) de que eu teria mínimas chances de conseguir qualquer ínfima coisa dentro dele em termos de resultado. Nem por isso não tive minhas pequenas crises a respeito, e por vezes elas tiraram um pouco do brilho da coisa.
Ou seja, o mais importante é entender que, em medidas de resultados e conquistas (ou da falta delas), ninguém É nada. Apenas ESTÁ. Não importa o quão grande ou pequeno, o que quer que se consiga deixa méritos e memórias, mas não DEFINE a ninguém. Ao longo de muitos anos neste esporte, vi pessoas sendo vencidas pelo seu próprio ego, ou pior, até desistindo do esporte assombradas por ele na falta do que julgava como resultado relevante, o que por si só já é uma definição traiçoeira.
O perigo dos extremos
Se tudo está polarizado, tenha certeza que o pensamento é o primeiro da fila. Claro, nem tudo é deliberado ou mal intencionado, mas é muito comum as pessoas enxergarem basicamente duas abordagens no esporte: profissional e recreação. Porém, enquanto nos preocupamos com rótulos, acontece muita coisa entre as duas pontas dessa régua, que é onde a absoluta maioria de nós estamos.
Isso geralmente fica latente quando há diversas pessoas em um mesmo espaço, numa turma de treino, por exemplo. Há, de fato, pessoas que saem de casa só para “brincar”, mas não significa que nenhuma delas tenha interesse em aprender nada. Existem outras que levam a coisa numa espécie de "rotina de performance", mas também não significa que estão buscando uma medalha olímpica. E nesta estrada, há gente por todas as partes no meio disso, e em algum momento, os interesses potencialmente vão colidir, basicamente por três aspectos atuantes:
- Os locais de prática geralmente tem um direcionamento razoavelmente definido, mas somos um esporte que não pode se dar ao luxo de dedicar recurso tão específico a diversos interesses diferentes individualmente, afinal mesmo aquele espaço provavelmente luta para manter o que tem tal como está;
- Os técnicos, independente do esforço que está disposto a empregar, muitas vezes (geralmente até) têm uma massa muito heterogênea e a missão de não apenas tentar fazer o melhor para cada um desses interesses, mas de não perder ninguém pelo caminho (e não é preciso dizer o quanto é difícil);
- Nem sempre (dificilmente, para ser honesto) os próprios praticantes têm muita clareza do que esperam de sua própria prática.
Caminho, destino, espelho e janela
Pois é, alguém pode tentar te ensinar a sacar, receber, golpear, mas não descobrir o que está dentro de você e o que te move. Eu gostaria de dizer que não, mas bem... é difícil assim. Por outro lado, uma coisa é bem simples e te poupa uma vida de frustrações: destino nenhum vai te fazer feliz se você não apreciar o caminho. Muita gente gostaria de ser campeão de A, saber fazer B, ser o melhor em Y, mas a verdade é que nada disso importa se você não estiver disposto a percorrer a estrada até lá. Portanto, faz muito mais sentido se perguntar sobre o que você gosta ou gostaria de fazer do que imaginar o que você gostaria de alcançar. E uma coisa não tem nada a ver com a outra.
A boa notícia é que é muito mais verdadeiro lidar com o "processo", que realizamos frequentemente, do que com a "meta", que podemos até nunca alcançar. Você sempre vai ter resposta enquanto estiver fazendo, então as coisas começam a fazer mais sentido. Durante o fazer / aprender, você terá oportunidade frequente de se colocar diante do espelho e avaliar o sentido que aquilo faz para você, o bem que faz para a sua vida, etc. Se o que faz sentido para você é apenas o que olha pela janela, pode descobrir que o caminho até lá não era bem o que queria para você. E infelizmente, tudo isso ainda é amplificado quando se vê nesta janela vídeos incríveis de segundos como se fossem o comum e não o excepcional.
Não é simples, pode levar um tempo, mas fato é que se você não puder ter momentos felizes no caminho, dificilmente você vai chegar ao que determina como destino. E qualquer que seja ele, não vai te fazer feliz por muito tempo. E mais do que isso: ainda com base no que você viu olhando na janela, foi você mesmo que determinou o seu caminho e o seu destino? Tem alguém pensando por você, ou pior, você apenas quer aquilo que viu? Acredite: embora não há nada de genial nisso, essa resposta e o que você vai fazer com ela pode mudar para muito melhor a sua relação com o esporte.
Comprar carro no açougue
Embora não consiga me lembrar agora de quem ouvi isso para dar o devido crédito, sábio foi quem uma vez disse que "o tênis de mesa é o esporte individual mais coletivo que existe". E tudo isso começa já do outro lado da rede. Não adianta saber exatamente o que se quer se o seu companheiro de treino não estiver minimamente disposto a ajudar. Mas alerta: embora ambos quererem percorrer o mesmo caminho seja o alinhamento perfeito e o melhor dos mundos, não é a quase inevitável falta disso que é desculpa para todas as frustrações. É um tema para um simpósio, que não vai acontecer aqui, mas nem tudo e provavelmente bem menos do que você imagina é culpa do seu parceiro(a).
De qualquer forma, tendo isso em vista, não faz sentido procurar algo onde não há para oferecer. Em já muitos anos nisso, já vi e vivi frustrações em todas as direções. Mas muitas delas (inclusive eventuais conflitos derivados delas) poderiam ser evitadas com a simples maturidade de entender o que se pode esperar. Às vezes o clube não tem o direcionamento que você gostaria, às vezes o técnico, às vezes a turma, às vezes a estrutura, às vezes um pouco de tudo isso, mas no fim cabe a você escolher onde quer buscar o que deseja. E considerando que somos um esporte pequeno (e não estou falando só do Brasil), muito provavelmente você não encontre tudo o que está buscando num lugar ou em parceiros, portanto cabe flexibilidade e estabelecer o limite dela. Mas importante: você já se perguntou o quanto VOCÊ está oferecendo (e dinheiro aqui é o que menos importa) no meio disso tudo?
Seja bom para você mesmo
É incrivelmente fácil ser infeliz com o que supostamente te faz feliz. Muitas vezes, como eu disse ali acima, por aceitar para si um caminho que era de outro, uma forma que não encaixa com a sua. E muitas vezes, o problema está justamente em tratarmos isso como "cabeças de parafuso", ou seja, existe um número limitado de formas pré-estabelecidas delas, e cabe a você ter a chave certa para poder manuseá-los, ou providenciar, se não a tiver.
Você pode se divertir no que o resto das pessoas acha que é só um preço a pagar pela diversão. E tudo bem. Você não precisa competir, se não tiver real motivação para isso. E tudo certo. Se competir, você não precisa esperar nenhum resultado, e especialmente, não deve satisfação sobre eles a ninguém que não seja você mesmo ou quem investiu efetivamente no seu caminho (use com moderação em ambos os casos). E ótimo. Em suma, (embora muita gente parece querer tirá-lo de nós quase sistematicamente) você tem o DIREITO de ser feliz com o tênis de mesa, e se não vive disso, quase uma OBRIGAÇÃO para consigo mesmo. Então, não tenha medo de escolher os seus caminhos, e nem de criar o seu caminho, se for o caso.
Escolha entre cura e doença
Enfim, se você não entender o que te faz feliz, o tênis de mesa pode ser mais uma fonte de frustração. Como se fosse necessária na era da ansiedade. E não significa que algo tão profundo precisa ser óbvio, e não é mesmo. Mas se omitir desse entendimento pode trazer frustrações que te levam a ter dimensões distorcidas de si mesmo. Então que tal dedicar um pouco de reflexão para deixar as frustrações apenas no campo do saque que você errou no 9x9 ou da batida que você deu na quina numa bola média?
Escolha os seus limites e assuma as consequências. E nunca se esqueça dos motivos pelos quais o esporte está na sua vida.
Já sentiu que o tênis de mesa já te colocou mais peso do que apoio sobre os ombros? Compartilhe sua experiência nos comentários.
Crédito da imagem: ittfeducation.com
Roberto 16/04/2026
Olha quem apareceu!!! O Fã nro 1 do Harimoto!!! Parabéns pelo texto!
Waguinho da boina 14/04/2026
Senhor Alcir, seja bem vindo. Seu nome só não é mais comentado do que o do Roberto no tênis de mesa. Bacana se dispor a trazer comentários lógicos sobre nosso amado ping pong
Autor
Apaixonado pelo esporte, em todas as suas perspectivas, desde 1996. Privilegiado por poder vivenciá-lo das mais diversas formas e níveis desde então, mas acima de tudo, por aprender a cada dia. Atleta amador, tendo por maior conquista a independência.